Começo por dizer que falhei redondamente, de uma forma desastrosa, comigo, connosco. Depois decido dizer-te tudo o que não tenho coragem de te gritar na cara porque Deus sabe que se estivesses à minha frente, gritar seria a ultima coisa que me passaria pela cabeça. Enquanto exponho de forma avassaladora tudo o que me atormenta e tudo pelo que passei sem ti, eventualmente as lágrimas escorrem-me pelo rosto e a certo ponto já não percebo nada do que estou a sentir. Contigo nunca soube ao certo o que estava a sentir, acho que peguei em tudo o que tinha dentro de mim e tentei calar ao máximo possível para que ninguém ouvisse, coloquei tudo no âmago da minha alma e esperei que ninguém tivesse coragem de remexer, nem mesmo eu.
Por vezes tive que ser eu a resolver os problemas e admito que foi péssimo, foi tão terrível colocar tudo o que tinha no colo da outra pessoa como a dor que guardava quando ainda estava dentro de mim. O que tinha entalado na garganta para dizer e preso no coração por sentir estava agarrado às minhas próprias paredes que por tantas vezes terem ruído, já não agarravam o que sobrava. E enquanto o que me dói está no teu colo, eu não posso estar. Enquanto tentas cuidar do que me magoa, ninguém cuida de mim. Fiquei sem nada e eu que tinha tudo...
Já não me lembro em que consiste esse tudo, agora na minha memória é tudo um espaço branco e nos dias maus, um espaço preto.
Nunca soube pedir para ficarem e contigo não tive hipótese de tentar. Acho que estava escrito nas estrelas ou assim... mas agora olho para elas e não vejo letras, então explica-me como é que tu as conseguiste ler?
Talvez as minhas estrelas teimem em apagar tudo o que é teu ou tentem colidir nas tuas para que eu não te esqueça. Não sei, sinceramente não as percebo. Não entendo, mas aceito que tenhas partido e posso garantir-te que nunca te esqueço mas não te estou sempre a relembrar, e penso que é o suficiente para aquilo que me resta no futuro. Os próximos 60 ou 70 anos serão sem ti e tudo o que me resta é o que me tem restado até agora.
O que eu preciso de te dizer é uma verdade, e como a maior parte das verdades, magoa. Eu não tenho saudades tuas. E consigo dizer-te isto enquanto desejo de uma forma louca que estejas aqui ao meu lado, enquanto desejo de uma forma louca que tudo isto seja um pesadelo e nunca tenhas realmente ido embora. Eu sei que me perdoas por tudo o que não te cheguei a dizer, certo?
Mas, por fim, pergunto-te: quem devo culpar pelos meus diversos fins? mesmo aqueles em que não havia mais nada que pudesse fazer sem ser dizer adeus, ou mesmo nos que não me deixaram dizer nada. Sinceramente posso dizer-te, há quem nem me tenha visto partir, há quem me tenha somente virado as costas ou batido com a porta. Há quem tenha chorado quando não havia mais pelo que chorar. Há quem me tenha agarrado na mão e pedido para não ir como quem pede algo tão simples como pestanejar. Mas pestanejar é tão mais fácil e involuntário...
