O inicio da Primavera há dois anos atrás foi uma data muito importante para mim. Foi o dia em que cresceram flores no meu coração, nas minhas veias, no meu corpo todo, incluindo nos meus pulmões. Eram flores lindas, com diversas cores, maravilhosas no entanto com o passar do tempo elas fizeram com que eu não conseguisse respirar.
Por falar em flores, hoje passou um velho por mim na rua. De expressão rugosa, triste da própria idade e levava na mão um ramo de flores. Eram flores feias, sem cor, murchas do frio. Tudo aquilo era uma cena extremamente angustiante e nostálgica, no entanto transmitia conforto, amor, carinho. Aquelas flores eram de alguém, para alguém e só isso devia importar... certo?
Já me partiram o coração sabes?
Quando ele partiu o meu coração, o meu mundo parou de girar. Não haviam mais estações do ano, só havia Inverno, frio, dor e depois nada. Absolutamente nada, fiquei vazia. Ele deixou um buraco no meu peito que não parava de crescer e mesmo se ele voltasse para mim nunca seria suficiente para tapar o buraco que ele mesmo tinha deixado. Era algo sem retorno, nada poderia fazer tudo aquilo acabar, nem mesmo a pessoa que fez começar. E eu tinha uns 13 anos e comecei a sentir como se tivesse 60.
Um dia partiram o meu coração, bocados de cristal por todo o lado, todo estilhaçado.
E eu soube logo que era impossível não mudar quem eu era, era impossível eu reconstituir o meu coração sem todos os bocados.
Eu mudei. «Crescemos quando deixamos de acreditar no para sempre.» e por mais ranhosa que esta frase seja, é verdade. Nessa fração se segundo, eu cresci.
Mais tarde eu estava pronta para um novo partir de coração, para um novo ciclo de relações. Achamos que tudo aquilo é o fim do mundo mas sabemos que não é. Porque nós estamos sempre prontos para uma nova dor, um novo ciclo.
Parti um coração e já remendei outros tantos.
Poupei diversos corações de serem partidos, não por mim, mas por eles. Tive pena, nada mais do que pena.
Parti um coração e rachei outros tantos.
Esta foi talvez a pior sensação de todas as mencionadas até agora.
Saberes que fizeste alguém passar por tudo o que tu passaste, fazeres alguém crescer.
Admito que levei comigo um pouco daquele coração mas não puder não levar, não houve escolha. Sinto que deixei um pouco do meu também, não para compensar mas porque, mais uma vez, não houve escolha.
Eu fiz alguém mudar.
E o que escrever quando estamos do outro lado da história? Quando somos os maus da fita?
Precisei de coragem para magoar, precisei de gostar um pouco mais de mim, precisei de egoísmo e falta de sentimento. Mas também precisei de força esgotável, coragem do tamanho do mundo porque estava a acabar comigo mesma no mesmo segundo em que partia corações. Acabei comigo, acabei com o que sobrava do meu coração e pior o de tudo: sinto que acabei com alguém.
Lisbon, April 2016
Lisbon, April 2016